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Manoel Rodrigues de Carvalho

  Por Adagmar Lima de Freitas

 

“O homem nasceu para aprender, apreender tanto quanto a vida lhe permita.”
                                                                     Guimarães Rosa

 

Seu Neca tinha sede de saber. Na fazenda do Mambre, podia tocar sua vidinha na maior tranquilidade. Podia? Podia não. Pessoa como ele fica sossegada? Procura daqui, dali, respostas geradoras de novas perguntas cada vez mais inquietantes. Que fazer atormentado por tantas indagações? Durante o dia, a lida. À noite, mais tempo para os estudos. Consultava livros, revistas, jornais... A vista se consumindo com a luz do lampião.
            Autodidata. Na roça, um homem solitário e solitário aprendia com os livros, com a natureza, com a vida, tudo que poderia aprender. Todos o respeitavam pela sua sabedoria e bondade. Prosa boa espelhando experiência e riqueza de personalidade. Tinha um detalhe: quem olhasse o homem só por olhar não avaliava sua dimensão. Nunca lhe acharia cara de intelectual. Pois ele o era. Com sua letrinha bonita escrevia versos, cadernos cheios de poesia. Quando padrinho de casamento, discurso entusiasta para os noivos. E especialmente cartas. Mantinha correspondência com os mestres e amigos. Com Guimarães Rosa, o médico. Com Chico Xavier, o médium. Queria aprender com eles a decifrar os mistérios do corpo e do espírito. Também tinha sua clientela. Receitava remédios manipulados e mesmo dos outros.
             Ler era prazer. Em plena fazenda, a biblioteca de fazer inveja a muito mestre. Todo tipo de livros ali era encontrado com destaque para os espíritas. Allan Kardec, Chico Xavier, Léon Denis... O hábito de leitura de romances cultivado quase em segredo já que os homens não apreciavam esse tipo de literatura. Victor Hugo (original e psicografado), Alencar, Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz... Livros de Pe. João Botelho, o Catecismo, a Bíblia Sagrada... Tudo marcadinho com seu nome completo e o carimbo “Fazenda do Mambre”.
             Seu Neca e suas duas paixões: o espiritismo e a medicina. Espírita de leituras profundas procurando entender a vida e a morte. Era, sim, um espiritualista ─ só acreditava na doutrina. Nunca frequentou um Centro ─ queria conhecimento. Devorava os livros de Chico Xavier.
             Nascera pra ser médico. Através das obras Chernoviz e Guia Prático de Medicina e outras foi aperfeiçoando seus dotes. Às vezes, se necessário, junto com a receita ia a ordem para o farmacêutico entregar os remédios. Fazia de tudo, até partos. Aprendera com o pai o bê - a - bá da arte de curar. E na dimensão sócio- fraterna amou o próximo. No temporal, na História sua vida foi o maior testemunho.
             David de Carvalho, no ensaio - João Guimarães Rosa, o Místico publicado na edição especial da revista Bel Contos – 1973- diz o seguinte:

“Até mesmo com raizeiros e receitadores, João Guimarães Rosa passa a conviver em harmonia numa atmosfera de respeito e compreensão: então faz-se amigo de Manoel Carvalho, residente nos Gentios, e que receita. João Guimarães Rosa compreende-o e julga-o de utilidade a uma gente marginalizada, distante do médico, da farmácia, quanto mais que Manoel Carvalho é bem intencionado e possui uma biblioteca sadia, fato mais engrandecido se considerarmos a época e as circunstâncias . A par de compêndios de ensinamentos médicos, lá se encontram também vários livros de inspiração espírita: “ A Grande Síntese” de Pietro Ubaldi e “ Depois da Morte” de Léon Denis.”
             E é certo. O médico e Seu Neca tinham longas conversas na fazenda do Mambre sobre doenças e curas. E ainda sobre a Filosofia espiritualista.
No livro Relembramentos João Guimarães Rosa, meu Pai , Vilma transcreve duas cartas- respostas do grande escritor para o amigo e, pelos vocativos usados, pode- se notar claramente a consideração de um pelo outro: “Meu caro, velho e distinto amigo” e meu muito estimado Manoel”. E mais ainda: a confiança na entrega de pacientes e negócios. Fala de seus pais com carinho. Interessa pelo restabelecimento da mãe do Chico Carvalho “que continue por muitos e muitos anos a comer o queijo assado, rodeado pela família honrada e alegre, numa cena tocante e patriarcal.”
           Era de se esperar que Manoel Carvalho se tornasse personagem de Guimarães Rosa. Segundo os entendidos da obra Roseana , há visível semelhança ente ele e o Compadre Quelemém de Goiás do Grande Sertão: Veredas. O amigo escritor jamais se esqueceria sua extraordinária figura.
           Seu Neca, grande amizade pelo Pe. Geraldo. Recebia- o na fazenda para as missas. E os dois. Noite alta, discutindo religião, política e, naturalmente, agricultura. Só não confessava nem comungava. De resto, respeito total. Sócio da Rádio Aparecida com carteirinha e tudo.
           Quando aqui chegou, o jovem Manoel deixara aconteceres. Vivera em Curvelo, General Carneiro e Itabirito. Lembranças ainda vivas do menino curioso e dos anseios juvenis. Romântico. Namoradas muitas. E uma donzela - Maria que lhe marcou o coração. Maria não sei se das Graças, da Conceição, de Lourdes ou mesmo Aparecida. Solteiro ficou. Dizia que Deus não lhe confiara uma esposa. Seu destino era outro. E ele o cumpriria fielmente.
         Boa novidade. Adquiriu um rádio a pilha . Através dele, notícias do País e do Mundo. E a Voz do Brasil era sagrada . Ouvia- a atento. Que faziam os políticos? Precisava saber, ora essa.
           Gostava de músicas. De violeiros e cantadores. De sanfoneiros então!... De viola em punho e sanfoninha rasgada, a música genuína, simplória , sim, mas sem apelações. Alvarenga e Ranchinho, Compadre Belarmino, Bentinho do Sertão e outros que deixaram um delicioso sabor do passado.

Olhos cobrindo-se de névoa. Cada dia mais. A catarata impedindo-o de ver- ler- escrever- viver. Procurou recursos. Cirurgia pelas mãos hábeis do Professor Hilton Rocha. Não teve a mesma sorte do Miguilim que, óculos na carinha sofrida – o milagre! Danou a ver tudo, até as formiguinhas. Com isso Seu Neca entristecia-se.
           Na última eleição que participou, seu voto foi sangrento. Caiu nas escadarias do Coronel Frazão. Sujo e machucado, cumpriria seu compromisso d cidadão. Também como político atuava. Chegou a ser presidente da UDN itaguarense. Brigadeirista ferrenho. Depois com a vassourinha na lapela do paletó, demostrava sua admiração pelo Jânio Quadros.
         Com a morte da irmã Maria, Seu Neca e Siá Biela sozinhos não podiam ficar. De jeito nenhum. Os sobrinhos Ari e Nair Edite resolveram trazê- los para a cidade. Que dor dar adeus a todos lugares vividos a todas as coisas queridas! Foi um custo. Mudança no caminhão. Trastes cheios de histórias. Objetos de estimação. Seu Neca, velho de guerra, olhos chorosos... Tirou elegantemente o chapéu e disse:
         – “Adeus, Mambre Velha!”
             Aqui terminou seus dias. Cabisbaixo, tristinho. Saía algumas vezes de casa. Lia com dificuldades. E conheceu a maravilha da televisão.
           Ary Silva e D. Zizinha sempre lhe enviaram revistas: O Cruzeiro, Cigarra, Alterosa e livros , muitos livros. Cultivou inúmeras amizades principalmente entre os colegas: Bite, Ary Coutinho, Dr. Antônio, Dr. Jacy e muita gente mais.
               Certo dia, Manoel Carvalho fechou solenemente o livro da vida.
               – Afinal quem foi na realidade este Homem?
              Segundo seu amigo Eduardo de Oliveira Júnior, ele foi, ele foi...
             Um verdadeiro "Apóstolo do BEM”.