MUSA - Museu Sagarana

Imprensa » Jornal Correio da Manhã
Jornal Correio da Manhã

JORNAL CORREIO DA MANHÃ – 19 DE MAIO DE 1946 – 2ª. Seção

Entrevista com Guimarães Rosa

Histórias de Itaguara e Cordisburgo

 

Conversas com Guimarães Rosa – As reminiscências fazem um escritor – De Barbacena a Baden-Baden- O Regionalismo talvez não seja um gênero, mas sim uma contingência – Euclides, Kipling e outras afinidades – Sol e chuva na terra de “Sagarana”.

José César Borba

     É um rapaz gordo, cordial e míope, vindo de Cordisburgo, a terra de seu nascimento, de Belo Horizonte, onde se formou em Medicina, de Itaguara, onde inaugurou a sua clínica, de Barbacena, onde serviu como médico da Brigada Militar de Minas Gerais, de Hamburgo e de Bogotá, onde foi respectivamente cônsul e secretário de embaixada.

     Estamos agora em torno de uma mesa no seu gabinete de trabalho, minúsculo, aliás, num minúsculo apartamento na praia do Russell. Nas suas estantes, que não são abundantes há, no entanto, livros que só ali se vêem e não constam provavelmente da profusão e do luxo dos colecionadores de lombadas decorativas. Em russo, em alemão, em húngaro, em inglês, em francês – que o amor dos idiomas é que conduziu de Itaguara para a Europa este médico da roça.

_ Estudava línguas para não me afogar completamente na vida do interior. A Polícia Militar de Minas, sem ser uma legião estrangeira abrigava, às vezes, um ou outro soldado exótico. Encontrei por lá, um russo - russo branco, está claro- com quem pela primeira vez confrontei a minha pronúncia. Mas certamente o Toluppa falava russo tão bem como falam o português os nossos caipiras do interior. Ao soldado da Brigada Militar seguiram-se cadetes e mesmo antigos tenentes e capitães do exército czarista de passagem por Barbacena, formando o Côro dos Cossacos do Kuban e do Don. E foi quando conversava com eles que, de um amigo recebi a sugestão:

   _ Se você gosta tanto de estudar línguas, por que não faz concurso para o Ministério das Relações Exteriores?

     E no ano de 1931, João Guimarães Rosa chegou ao Rio de Janeiro para fazer concurso de provas de Itamaraty. Entre 1931 e 1937, morando na capital e com a Europa assegurada, porque já estava na carreira diplomática, começaram a morder o seu coração saudades de Cordisburgo e Itaguara. Saudades vêem através de reminiscências. E as reminiscências fizeram de João Guimarães Rosa um escritor.

     O livro foi escrito em 1937 e recebeu vários nomes até chegar a este nome com que se acha nas livrarias: Sagarana. As mudanças todas se fizeram, porém, depois da primeira letra, pois os outros títulos também começavam com S. era uma superstição.

   _ Tenho todas as superstições públicas e ainda algumas particulares... confessa o autor de Sagarana. Neste apartamento da praia do Russell.      

     E as reminiscências se fizeram histórias, que começaram a rebentar da memória, localizando, outra vez, vilas, cidades, povoados, fazendas, margem de rio, burros, bois, cavalos, vaqueiros, meninos em postulados. Era no dia 31 de dezembro de 1937 e essas pessoas, regiões e animais estavam contidos em doze histórias datilografadas e encadernadas, à porta da livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor.

       Mas as inscrições para o Concurso de Contos Humberto de Campos tinham sido prorrogadas por três meses. Havia tempo para rever os originais, emendar o estilo, castigar a forma. O jovem autor, porém, estava exausto de escrever e de ler e deixou ficar a obra com as possíveis incorreções.

   _ Queria ganhar o concurso, claro! Mas, principalmente, precisava de fazer uma experiência. Como as minhas relações literárias eram quase nenhuma e eu sentia falta de que alguém me dissesse se aquilo valia alguma coisa, recorri anonimamente aos membros da comissão julgadora do Concurso Humberto de Campos. No entanto, quando a comissão se reuniu para julgar, eu não estava mais no Brasil. Muito tempo depois, em Hamburgo, li a notícia de que outro fora o vencedor.

     Com a ruptura das relações entre Brasil e a Alemanha, fui internado em Baden-Baden, onde fiz ótima camaradagem com o pintor Cícero Dias, que leu, gostou e me animou a publicar Sagarana. Voltando ao Brasil, mal pude passar umas poucas semanas no Rio, seguindo depois para a Colômbia, de onde voltei em fins de 1944. Foi um custo para achar um apartamento! E só depois, então, é que tornei a pegar no livro. Fiz lhe pouquíssimas alterações de forma ou estilo, limitando-me a suprir em uma ou duas histórias, parágrafos que me pareceram supérfluos para o público, embora tivesse para mim uma grande importância, mas toda de ordem subjetiva. O que me preocupa e tortura, ao rever as páginas escritas, é a angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita. Em literatura sou um visual, só sei descrever aquilo que eu vi, efetivamente, e sonhei, depois.

     Antes de Sagarana, J. Guimarães Rosa escreveu alguns poemas, reunidos num volume, Magma, premiado em 1936 pela Academia Brasileira de Letras. Depois de Sagarana espera escrever outras histórias, mas não tem plano nenhum. Provavelmente as histórias serão ainda regionais, embora há doze anos esteja ausente do interior de Minas. Mas as histórias poderão ser também, de gente e de paisagens do Rio, da Alemanha, da Dinamarca ou da Colômbia.

   _ O regionalismo de Sagarana talvez não seja um gênero, mas sim uma contingência. A medida que vou vivendo e sonhando, participando de um mundo diferente do da minha infância, vou sentindo que mais tarde serei capaz de me tornar escritor de cidade, quando os factos e as pessoas de hoje forem partes da minha memória, constituírem lembranças e saudades, como as de Cordisburgo e Itaguara que me fizeram escrever Sagarana.

       E o contista vai discriminando o lugar de inspiração de seus contos:

  _ São duas regiões distintas, bem diferentes, em Minas Gerais. Aquela onde nasci, passei a infância e as férias da adolescência, pertencem: “O burrinho pedrês”; “Corpo Fechado” – só o cenário, pois os factos, ou seus elementos principais, vieram da outra zona;“ A hora e vez de Augusto Matraga” – só o início do conto, o resto sobe mais no mapa; “Minha gente” e “Duelo”, se bem que o Turíbio Todo faz uma excursão pela outra região. A outra região é Itaguara, onde eu cliniquei mais tarde. A Itaguara devo estes contos: “A volta do marido pródigo”, “Sarapalha”, “São Marcos” e “Conversas de bois”. Naturalmente, ocorre certa interpenetração, e há muitos componentes comuns às duas regiões, ressalva Guimarães Rosa.

       Cordisburgo é uma zona de fazendas de engorda de gado. Os animais são bravos, temerários e insubmissos. Afirmam-se com toda a violência diante dos vaqueiros armados de ferrão. Esse boi em seu poder de revolta é o que nos revela Guimarães Rosa, contrastando com aquele bicho tardo, passivo e humilde descrito pelos paisagistas dos campos de pastagens do nordeste e dos pampas.

     _Na minha terra os bois valentes, que metiam medo a muito vaqueiro velho, eram mais abundantes, talvez do que aquele gado pacífico e conformado que também está em outras histórias do interior.

       Entramos, depois, no capítulo da confecção de Sagarana, e antes que daí passássemos as duas afinidades, sempre denunciadas na obra dos estreantes, J. Guimarães Rosa faz uma declaração supersticiosa:

       _ Sei que isso é uma coisa ingênua, tão ingênua que começam quando eu ainda era menino, tolerei-a na adolescência e acabei sem meios de vencê-la completamente na idade adulta. Tratava da ideia de que todos os livros se acham feitos, completados e revistos, desde o dia do começo do mundo. Vivemos apenas sonhando com os factos, os personagens, as paisagens, enfim, tudo que está dentro desses livros, suspensos no mistério e no invisível. O nosso esforço é para surpreendê-los no ar e copiar as suas... (continua)