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Jornal Correio da Manhã (parte II )

(Continuação)... frases, uma a uma... Escrevendo, ou captando estas coisas escritas, o que sempre nos vem à mente e nos preocupa é o problema do destino e do homem.

     Sagarana – onde as histórias não estão dispostas na ordem cronológica em que foram escritas – é um caminho progressivo para o debate desse problema, fundamental e ao meu ver único na criação literária. No último conto – “A hora e vez de Augusto Matraga” – a ação acha-se praticamente despojada, quanto ao afã de documentação, do caráter regional e pode-se, talvez, por isso mesmo, sentir melhor a linha do destino incidindo sobre o homem, sobre o meu personagem.

     Não compete, porém, ao autor estar dizendo estas coisas, e fazendo estas revelações – pondera Guimarães Rosa; muitas vezes o que dizemos e pensamos pode não passar de intenções, que os críticos e os leitores debalde procuram no livro...

     E chegamos, então, às afinidades de J. Guimarães Rosa com Euclides da Cunha e Rudyard Kipling. O estilo e a sensibilidade do autor de Sagarana pareceu a alguns leitores que devia integrar o mineiro de Cordisburgo na família dos que escreveram Os Sertões e Kim.

       _Com a sua maneira de escrever, que vai da majestade à minúcia – observamos a J. Guimarães Rosa – o senhor devia ser, sobretudo um descritivo, e, todavia abusa, como ninguém, dos diálogos.

     _ Prefiro que os personagens falem por si mesmo; isso é hábil, aconselhável – e simplifica o texto. Não sei que vantagem advém para o autor de ser um intérprete das suas criações. Os personagens devem mentir ou dizer a verdade com a sua própria boca; o leitor que os pilhe em falta ou em virtude...

     E passa a contar: leu Euclides da Cunha quando era menino, atropelando-se com o estilo dele e, por isso mesmo, saltando páginas inteiras e esguelhando outras, sem maior demora e observação. Leu-o mais tarde, depois que Sagarana estava escrito e pronto, rodando no prelo. Leu tudo, com olho lento e espírito alerta. Mas era tarde para influências.

       Quanto a Kipling, exclama:

       _ Com este tenho algumas afinidades, pelo menos a da miopia desde a infância. Se eu quisesse fugir a alguma influência não poderia jamais fugir à de Kipling, porque esta, se é influência, nasceu comigo, faz parte da minha natureza. Fugiria antes, e é o que tenho feito, à leitura continuada de Coppard, dos Tharand e de Galsworthy – porque, quanto a estes, sim, seria de uma vulnerabilidade terrível, capaz talvez de dar comigo no heterogêneo.

       Guimarães Rosa abre o seu livro e mostra coisas engraçadas.

       No conto “Conversa de bois”, à página 279 de Sagarana, está escrito que o boi Brilhante projetou a cabeça e esta sala do enquadramento – canga, canzil e brecha – como o pescoço de um jaboti que se desencaixa para beber chuva.

     Explica que a forma anterior era a seguinte: “como o pescoço de um jaboti que se desencolhe para tomar sol”. Aqui a mudança de tempo, chuva em lugar de sol, foi consequência de Kipling... Depois de Sagarana já estar no prelo, leu por acaso que um personagem de Kim se mexia: “Como uma tartaruga ao sol”. Jaboti ou tartaruga, tanto faz: ambos estavam com a cabeça no sol.

     O sol e a chuva das afinidades iam cair outra vez na terra de Sagarana. Então, por obra da poetisa Cecília Meirelles, autora destes versos: “E nas verdes ramas, com chuvas guardadas”, que se parece com este trecho do conto “Duelo”: “Das ramadas caia chuva guardada”.

       _Quando verifiquei a coincidência já era tarde para emendar, diz Guimarães Rosa. Substiui, porém, no conto “Sarapalha” a expressão: “o sol sobe” por “o sol cresce, amadurece”, também por causa de Cecília Meirelles. Ainda em Hamburgo li uma vez uma reportagem, no “Observador Econômico”, onde ela usara aquela expressão “o sol sobe” que estava também no meu livro inédito. Também no livro Negrinha, de Monteiro Lobato, que não conhecia ao tempo e escrevi “Conversa de bois”, há uma história de um menino guia de bois, e de uma vingança indireta, que tem a base de inspiração possivelmente aparentada com a do meu conto.

     Em toda a literatura encontra-se, de resto, casos como esses de sensibilidades afins. Provavelmente , além dessas semelhanças que apontei, devem existir outras muitas.

       Quanto a preferências, Rainer Maria Rilke, é o poeta que está acima de todas ba sua predileção, e também o poeta inglês Coleridge, que lê incansavelmente.

     A literatura se faz de funções e afinidades. Um mesmo facto, pessoa ou imagem, se desdobra ou encolhe convertendo-se numa criação diferente: aquele negrinho que chora, canta, se desespera e acaba estourando a bolada, no “O burrinho pedrês”, não é mais do que a fusão de uma história de vaqueiro, bem local, bem mineira com um menino preto que conheceu numa pensão de estudantes em Belo Horizonte.

     Sobre o seu estilo, a sua arte, a sua técnica de formar e distribuir as palavras. J. Guimarães Rosa escreveu à página 220 de Sagarana: “Sargon, Assarhaddon, Assurbanipal, Teglattphalasar, Salmanassar, Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor, Sanekherib. E era para mim um poema esse rei de reis leoninos, agora despojados da vontade sonhada e só representados na poesia. Não pelo cilindro de ouro e pedras, postos sobre as reais como riçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos nomes.

     Sim, que, à parte o sentido prisco, valia a ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fôra se jamais usado. (...) ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo – Oh colossalidade! – na direção da altura?

     E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem. (...) E que a gíria pede sempre roupa nova e escova.

     Ele confirma que o que está acima, descoberto pelo repórter, constitui realmente a sua profissão de fé.

       E aí ficam homem e a sua obra, Guimarães Rosa e Sagarana, pela primeira vez numa entrevista de jornal. Coube-nos esta primazia com respeito a este autor, cujo aparecimento na literatura brasileira está servindo para renová-la e revigora-la; está sendo motivo para que os verdadeiros homens de letras, como antes de sua função e vitoriosos no seu ofício, saúdem o companheiro com o mesmo entusiasmo com que Ruy Barbosa e Tristão de Athayde saudaram, em sua estreia, a Monteiro Lobato e a José Américo de Almeida. E também para que alguns publicistas incansáveis debatendo-se no efêmero misturem a sua inveja, com um pouco de intriga que nenhum mal faz à carreira dos escritores.

    

BORBA, José César. Histórias de Itaguara e Cordisburgo. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 de maio de 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R2.